“Avia S-92 Turbina (Messerschmitt Me-262) 1/32”


Porto Alegre, início anos ’80: dois guris olham uma vitrine de uma tradicional loja de modelismo da cidade que, aliás, era a única. Na vitrine, entre diversos modelos montados e caixas de kits, destacava-se a presença marcante das linhas de um novíssimo Me-262 (Revell 1/32), muito bem montado e pintado, certamente obra de um modelista experiente. Os dois amigos, aprendizes de modelistas, admiraram o trabalho bem-feito e sonharam em poder fazer um kit igual. Um tempo depois, um dos amigos conseguiu obter um Me-262 igualzinho à aquele que viram montado na loja. Imediatamente colocou mãos à obra, mas a medida que ia progredindo a montagem, se dava conta que o modelo distava (e muito!) daquele que haviam visto! O outro amigo veio ajudar...quem sabe a quatro mãos dava-se um jeito! Nada. O modelo continuava “pavoroso” e o acabamento sofrível, pois ainda faltavam aos amigos muitas “horas de vôo” neste hobby. Na verdade, quanto mais mexiam, pior o kit ficava! Depois de muitas peças quebradas, manchas de cola, digitais e uma horrorosa pintura “verde + preto + azul calcinha”, resultado de um somatório de “técnicas mistas errôneas” (óleo, spray, esmalte, tinta para tecido...), o dono do kit decidiu se livrar dele:

- Toma, pega pra ti. Quem sabe tu dá um jeito outra hora.- Só que o que nenhum dos dois imaginava é que ia ser tão tarde!


Canoas, dezembro 2005: Como você, leitor, já deve estar suspeitando, confirmo aqui que eu era um daqueles guris. Obviamente, eu fui quem recebeu o que restou do kit depois da montagem frustrada! Confesso que, apesar da minha paixão pelo Me-262, receber aquela sucata não foi lá que se diga uma benção! O estado geral era espantoso e algumas peças haviam se perdido ou quebrado. Durante um tempo, tentei uma restauração: banho de soda cáustica (banhos, no plural!), lixa, mais cola... Desisti: não tinha nem experiência nem o ferramental adequado para levar adiante a tarefa. Logo, joguei o kit numa mala que servia de sumidouro e me esqueci dele...até a data acima.

Por essa data eu estava buscando um “desafio modelístico” para as férias e eis que, garimpando minhas caixas, deparei-me com o dito Me-262! Nossa percepção das coisas muda muito com o passar do tempo. O que na minha adolescência era um modelo maravilhoso (alto relevo, “interior detalhado”, como dizia na caixa) quase perfeito, hoje em dia o mesmo kit não passava de um “brinquedão”, grosseiro e parco de detalhes, mas ainda razoavelmente fiel como representação em escala de um Me-262. E não estou falando de tecnologia, pois os modelos mudaram bastante nesses últimos anos e não há como comparar um modelo sofisticado atual com um molde de mais de 30 anos, mas apenas de percepção. O kit, na realidade, sempre foi aquilo, eu é que mudei minha percepção sobre ele. Mas também mudei minhas habilidades modelísticas! Anos a fio de montagem de modelos para amigos, para colecionadores e pra mim mesmo, somados a criação de peças originais e modelos únicos para minha própria marca de modelismo, a Commando5, me deram um background sólido para encarar qualquer desafio. Inclusive “aquele” Me-262 naquele estado (veja as fotos)!





O desafio: Quando manifestei abertamente a meus colegas modelistas a minha vontade em restaurar o kit, senti que fui observado com estranheza por alguns: - A Trumpeter tem um 262 bem bonzinho e em bom preço...- me disseram, num tom misto de assombro, ironia e piedade samaritana, tal como se falassem com um ser desatinado, mais do que os modelistas costumam ser normalmente. Não! Não era essa a questão. Hoje em dia, as pessoas (modelistas) acumulam caixas e nem montam os seus modelos, esperando que venha o novo lançamento “tal” que vai superar o kit “qual”, que por sua vez vai ser superado no ano seguinte e assim por diante. Nada tenho contra quem busca modelos de melhor qualidade, mas acredito que essa busca desenfreada pelo “último lançamento” e/ou pelos refinamentos tecnológicos dentro do modelismo causa, pelo menos, dois problemas. Primeiro lugar, isso tornou os modelistas “comodistas”: não se precisa criar nada, somente aplicar o que já é dado e convenhamos que existem kits tão perfeitos que quase se encaixam sozinhos! Eu sei, alguns irão argumentar que os kits são muitos e o tempo é escasso e não há como desperdiça-lo em detalhar ou criar peças. Ok, mas isso é parte importante do hobby, como vamos deixa-la de lado? Assim corremos o risco de perder toda a capacidade criativa e manual do hobby, e a graça dele que está justamente em resolver os problemas que a tarefa oferece e não num ato mecânico de encaixar peças precisas como um robô automotriz japonês! Então, se pensarmos assim é melhor esquecer o modelismo e comprar diretamente aqueles modelos chineses que vem prontos, só tirar da caixa e por na prateleira! E até que eles são bem bonitinhos...
O outro problema é paradoxal: criam-se kits quase perfeitos, que demoram bem menos tempo para serem montados, mas a quantidade de lançamentos e a competição acirrada entre as fabricantes na tentativa de superar o concorrente coloca no mercado uma torrente de kits difícil de ser absorvida. Porém, ao mesmo tempo, esta enxurrada de modelos é prontamente superada o que induz ao modelista ao consumo desenfreado de “caixas” além de esperar sempre pelo próximo lançamento...então, para que montar este que tenho em mãos se virá logo um melhor? Chega a ser perversa está lógica!
Enfim, modelismo. Ato de modelar, criar, desenvolver modelos. Com base nessa premissa básica decidi enfrentar o velho Me-262 e transforma-lo num modelo respeitável. Era um desafio. Fazer além daquilo que eu gostaria de ter feito anos atrás quando ganhei o modelo. Ou seja, satisfaria meu grau de exigência, naquela época, uma montagem alinhada e uma pintura a aerógrafo. Mas hoje isso não bastava, alias, seria o mínimo. O negócio era partir para o Scratch e a tarefa requeria, além de habilidade, uma boa dose de paciência e muita pesquisa para corrigir, reparar ou construir os detalhes inexistentes do kit.

Exterior: o kit era todo em alto relevo, como era de praxe na época. Foi lixado por completo e as linhas todas rebaixadas com scriber, réguas metálicas e “home-made stencils”, além de ferramentas diversas tipo raspadores dentários. Por “home-made stencils”, entenda-se restos de Photoetched, chapinhas recortadas e até mesmo moedas, tampinhas ou outros utensílios diversos. Use sua imaginação, isso também é modelismo!
Certos detalhes em alto relevo foram preservados (importante ter uma boa referência) e outros acrescentados, por exemplo, a dobradiça das portas de acesso aos canhões e as protuberâncias das mesmas onde se alojam as culatras dos canhões.
Um problema encontrado neste kit, mas muito recorrente em grande parte dos modelos, é o alinhamento geral. Os pinos de fixação das metades que não estavam quebrados foram removidos e reforços foram instalados internamente. Após longas sessões operacionais conjuntas de lixa e lima, o modelo finalmente parecia tomar rumo. Uma dica: o ajuste do plástico deve ser o mais preciso possível, para evitar o uso exagerado de putty, que costuma nos causar outros problemas, como deformidade e porosidade da superfície, além de aumentar nosso trabalho. Prefira preencher frestas largas com tiras de poliestireno, ou sprue, em vez de putty. Isso reforça a junção e evita a indesejada retração do putty, normal por causa do solvente. Um bom substituto do putty para preencher frestas e desníveis grandes é a massa epóxi. Tem algumas vantagens: não retrai, pode ser alisada com água e é fácil de lixar. Ainda você pode esculpir peças com ela. Além de tudo mais, é barata. Nesse kit utilizei-a diversas vezes: seja nas junções das asas com a fuselagem, seja para a confecção de detalhes externos e internos. Só uso putty como massa de acabamento para eliminar riscos de lixa e afins. Mais nada.




Interior: Aqui a coisa foi complicada. O interior do kit, além de parco, era pouco detalhado e nada tinha a ver com o avião real. Os porões de roda eram lisos, sem detalhe e pior, oclusos. Tudo tinha de ser refeito ou amplamente modificado, caso se utilizassem algumas estruturas originais. Acompanhe pelas fotos como foi o desenvolvimento do trabalho que levou alguns meses para ser concluído. Aqui foi fundamental o uso de uma fonte de pesquisa confiável, com inúmeras referências pictóricas e iconográficas que me permitiram captar a riqueza de detalhes da aeronave, as quais tentei reproduzir, na medida do possível e das minhas habilidades. Para recriar os mínimos detalhes, tipo manetes, botões, atuadores, cabos e fiação o modelista deve empregar toda sua criatividade e abusar da sua imaginação, além de muito suor e uma boa “caixa de pandora” de onde extrair sucatas e miudezas diversas! E haja sucata!
Para você ter uma idéia, certas peças foram simplesmente descartadas, por exemplo, os atuadores dos trens de pouso, que foram trocados por novos feitos de perfis plásticos, agulhas hipodérmicas e fios de telefone! O mesmo se aplica ao interior do porão de roda, extensamente trabalhado.
No interior do cockpit, basicamente mantive as peças de fábrica, mas tudo foi modificado: a banheira, o manche, o painel (que teve alguns instrumentos recriados, transplantados de sucata) e o assento. Este último foi privilegiado em virtude da sua visibilidade. Só usei a base do banco. Muitos detalhes antes inexistentes e complexos, como a mira, foram criados do nada.




Pintura: - O que??? Você não vai fazer o Me 262 alemão, camuflado? – Ouvi algumas vezes essa queixa/deboche de alguns colegas modelistas... Como se eu estivesse violando uma lei sagrada que nos obriga a fazer as versões consagradas (e, diga-se de passagem, muitas vezes manjadas!) de determinado avião ou veículo, de preferência da mesma nacionalidade do fabricante do mesmo. Francamente, acho que essas limitações e travas impostas ou auto-impostas, não nos acrescentam em nada, muito pelo contrário, nos impedem de procurar desenvolver a nossa criatividade e buscar novidades, o que é instigante e essencial para quebrar com a mesmice e a rotina. Isso é um hobby, portanto, não imponha tantas regras e burocracia no seu lazer: a vida diária é cheia disso já... Invente, crie, divirta-se, isso é o que realmente vale!
Voltando ao tema, escolhi o acabamento com base nos seguintes pressupostos pessoais: não coleciono aviões “nazistas” e não gosto muito de pinturas camufladas. Elas servem na realidade pra quebrar a silhueta das aeronaves e veículos, dificultando a visibilidade do objeto por parte do inimigo, como é sabido. Nos meus modelos isso não é necessário (até porque ninguém faz a limpeza deles além de mim!), gosto exatamente de destacar a silhueta e as linhas aerodinâmicas, e pra isso, nada melhor que uma cor sólida. Nesse contexto, eis que me recordei dos Avia S-92 Turbina, feitos no pós-Segunda Guerra Mundial com sobras de partes de antigos Me 262 da Luftwaffe espalhados pela Tchecoslováquia, após a derrota nazista. Uma versão diferente e pouco vista em livros, sites e exposições de modelismo. Era a ideal!
Aqui também foi essencial a pesquisa: em alguns livros e na folha de decais da Scale Masters o avião era alumínio com raios na fuselagem, ora vermelhos, ora azuis. Descobri depois que esta versão representava os aviões relegados ao treinamento em solo, com a chegada dos MIGs soviéticos. Confesso que considerei este um triste fim pra tal obra prima da ciência aeronáutica, logo, preferi então fazer um dos protótipos tchecos no imediato pós-guerra, o que me levou a descartar boa parte da folha de decais e improvisar: o rato Mickey foi pintado a mão sobre um decal preto recortado, os stencils e os códigos alfanuméricos montados com sobras de decais e parte, pintados. O modelo foi pintado com cores alemãs, RLM 66 no cockpit e RLM 02 no overall, conforme as referências encontradas. As tintas são do tipo automotivo e as misturas das cores são também de minha autoria. O envelhecimento foi discreto, até porque esses aviões não tiveram uso operacional por muito tempo. Apenas optei por aplicar sutis marcas de uso: descascados em bordos afilados, partes móveis, marcas de graxa e fuligem dos canhões, como se tivesse voltado de um treino, mais nada.






Eis o resultado final.






Agradecimentos: Ao meu amigo Marcus V.T. Borges, pelo empréstimo dos seus alfarrábios (Kokufan, Air Enthusiast: indispensáveis para a realização deste modelo) e de um modo geral, a todos os amigos do IPMS-POA pelas dicas, força, sugestões e críticas construtivas e elogios. Sem esquecer da minha esposa Vanessa (misto de fã e crítica pertinente do meu trabalho) e de meu velho amigo Favio, aquele guri que me presenteou o Me262, lá nos idos de 1985 e que se emocionou ao ver o resultado final.




Jorge Christian Fernández