Uma Análise do Filme “Feios Sujos e Malvados” de Ettore Scola

ASSOCIAÇÃO EDUCACIONAL SUL-RIO-GRANDENSE

FACULDADE PORTO-ALEGRENSE

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO “O PENSAMENTO MARXISTA CLÁSSICO E A ATUALIDADE”

FUNDAMENTOS HISTÓRICO-SOCIAIS DO MARXISMO

PROFª Drª ANALUCIA DANILEVICZ PEREIRA

 

 

 

 

 

 

 

FEIOS, SUJOS E MALVADOS E O LUNPEM-PROLETARIADO SEGUNDO MARX

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aluno: Péricles Lopes Gomide Filho

 

 

Porto Alegre, 9 de outubro de 2010

 

Este pequeno artigo, tem por objetivo oferecer um olhar baseado na teoria marxista sobre o filme Feios, sujos e malvados (Brutti Sporchi e Cattivi) de Ettore Scola. Esta é considerada uma das principais obras de Scola, gravada na metade da década de 70 do século XX, retrata a vida de uma família em uma favela em Roma.

A história, carregada com o típico humor negro italiano, é permeada por uma série de simbolismos e boas doses de realismo fantástico, onde o sexismo, o individualismo, a violência, o materialismo tem um papel fundamental na mecânica do enredo.

Feios, sujos e malvados, é um filme contemporâneo ao seu tempo, e mostra de maneira nua e crua as contradições históricas produzidas pelo processo capitalista, dentro da considerada “era de ouro” do desenvolvimento econômico do Ocidente (em especial na Europa Ocidental e nos Estados Unidos), que ocorre nas décadas de 50, 60 e 70, quando a Crise do Petróleo interrompe esse crescimento e exige que o sistema se reformule gerando a primeira grande crise econômica do pós-guerra.

Scola procura com a sua obra, ao mesmo tempo escrachar a sociedade italiana do período, com uma crítica ferrenha, a valores sociais e religiosos e denunciar a miséria e a pobreza italiana, minuciando o cotidiano de uma família de lumpen-proletários italianos.

Pensar este filme, sob uma ótica marxista, permite um grande número de análises, que podem ir para a história, a sociologia, a economia e até mesmo para a antropologia. Porém como o filme fica focado apenas nas relações familiares e pessoais dos seus protagonistas, o conceito marxista mais evidente a ser aplicado é o do lunpem-proletário.

Tanto Marx quanto Engels já discorrem sobre esse conceito na obra a “Ideologia Alemã” e as citações ao lunpemlionato também aparecem no Manifesto do Partido Comunista, num conceito bem próximo ao que o filme apresenta. Segundo Karl Marx (1848, p24) O lunpemproletariado, esta putrefação passiva das camadas mais baixas da velha sociedade (…), por toda a sua situação de vida estará mais disposto a deixar-se comprar para maquinações reacionárias.Marx entende esse extrato baixo da sociedade, essencialmente como uma massa de manobra, que pode eventualmente fazer parte da revolução proletária, porém como Marx também colocou no Manifesto do Partido Comunista, que essencialmente foi retirado o direito de propriedade da classe proletária em um sentido mais amplo, o capital, com a sua forçada reestruturação da sociedade e das forças produtivas, destruiu o antigo modelo feudal. “A velha sociedade” não tinha mais sentido no mundo do trabalho assalariado, no estado laico burguês de direito.

As camadas baixas da sociedade no mundo capitalista apenas tem a sua força de trabalho, o conceito de propriedade, em sentido mais amplo, perde-se no estado burguês, a renda do trabalho esvai-se através do consumo e dos impostos. Marx (1848, p25) coloca: “Nas condições de existência do proletariado já estão destruídas as da velha sociedade. O proletariado não tem propriedade; suas relações com a mulher e os filhos nada têm de comum com as relações familiares burguesas.” ainda no mesmo parágrafo: “As leis, a moral, a religião, são para ele meros preconceitos burgueses, atrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses.” (Karl Marx, 1848 p25).

Pensar no proletariado sob uma perspectiva histórica, é observar uma massa de trabalho de milhões de seres humanos presos ao sistema, vendendo a sua força produtiva de maneira individual e procurando apossar-se da ideologia burguesa do sucesso através do mérito e do individualismo, mesmo que esses sejam alcançados em detrimento a integridade e a dignidade de próximos.

Para o proletariado, a maioria dos valores burgueses não servem ou se encaixam com reservas, por que basicamente são da burguesia, mas a impossibilidade de ascensão ao meio burguês através do trabalho ou da impossibilidade de controlar os meios de acumulação, refratem o sentido destes valores, que são utilizados integralmente pelos detentores da propriedade, mas não pelos trabalhadores como um todo.

Se para o proletariado o “ethos” burguês acaba se transformando em uma mera convenção fluída para fazer a sua parte do mecanismo social funcionar, para o lunpem-proletário que está abaixo do sistema produtivo, os valores burgueses são ainda mais rarefeitos e adaptáveis a dura realidade da miséria e da exclusão social.

Sobre esses aspectos podemos observar na obra de Scola diversos pontos de conexão com os conceitos marxistas clássicos a respeito do lunpem-proletariado.

O primeiro deles é a deturpação dos valores burgueses relacionados a família. No filme, o adultério e a opressão sexual masculina são exploradas abertamente, mas não sobre uma ótica feminista. O sexismo é extrapolado como instrumento de dominação por ambos os sexos, para os homens da família significava poder, para as mulheres era uma ferramenta para a obtenção de benefícios dentro do universo da favela. Ou como no caso de uma das personagens da história, modelo e atriz pornô, a possibilidade de ascensão social através da exploração do corpo.

A obra oferece uma perspectiva do interior da favela como espaço de vivência, existem poucas cenas externas a ela. (o que é uma característica das obras de Scola, realizar as tomadas em um único ambiente). As que existem mostram os membros da família de Giacinto interagindo com a sociedade em relações bem próximas às descritas por Marx no Manifesto do Partido Comunista. As cenas exibidas fora da vila, mostram as relações do lunpem-proletariado representado pelos protagonistas com a sociedade burguesa. As muitas situações onde Giacinto é preso, ou quando a família vai receber a pensão da “nona”, ou ainda no batismo do neto, são ocorrências que mostram as poucas interfaces do lunpemlionato com o estado e com a sociedade burguesa.

A religião, o estado, as convenções da sociedade burguesa, são apenas uma máscara que esconde valores próprios do Lunpem que são adaptados a servirem a sua interação com o meio social. Esta “ética” permite, como mostra o enredo, relações incestuosas, violência familiar e doméstica e a banalização da condição humana. Ao mesmo tempo permite a reprodução do sistema capitalista dentro do seio familiar.

Uma questão central na obra é a situação do personagem Giacinto, ex operário, encostado pela previdência italiana, por um acidente de trabalho em que ficou cego de um olho. Giacinto recebeu uma indenização do Estado, que ele guarda em espécie. A família cobiça o dinheiro e ao longo do enredo trama matar o “patriarca” para se apossar do mesmo.

Giacinto usava a sua indenização como forma de poder, reproduzindo uma estrutura de dominação tipica do sistema capitalista, a austeridade do uso deste era confundida com o mérito pessoal de tê-lo ganho, às próprias custas e sacrifício.

Apesar de a família clamar pela partilha da indenização com a justificativa de melhorar de vida, eles também reproduziam esta mesma lógica, de usar o dinheiro em benefício próprio, como se vê claramente quando todo o grupo busca a pensão da “nona” e a reparte entre si.

Como vingança e ainda seguindo o preceito do individualismo, Giacinto vende a casa, o único bem da família, para comprar um carro e viajar com a sua amante.

Scola como membro da chamada escola “pós-neo-realista” do cinema italiano, insere uma crítica corrosiva a sociedade italiana do período, ao utilizar da “moral” do lunpemlionato, como instrumento, não apenas para denunciar a pobreza e a miséria na Itália dos anos 70, mas também para questionar o sistema como um todo. A caricatura produzida, através do exagero, da hipérbole, e do humor negro, com as doses necessárias de realismo criaram um cenário de contestação da sociedade à esquerda.

Embora a obra como um todo esteja centrada no dia a dia da família de Giacinto, ela produz um olhar sobre o sistema e a impossibilidade do lunpem-proletário vencê-lo. As condições de vida, a miséria, a exclusão social, a falta de instrução, produzem neste setor apenas a possibilidade da sobrevida e não a da vida.

Com a sua energia e com os seus esforços voltados apenas para a sobrevivência, as personagens do filme, nos apresentam um retrato cruel da pobreza e da exclusão social dentro do sistema capitalista, indicando claramente que não existem componentes para o lunpem-proletariado, segundo a visão clássica de Marx, criar uma consciência de classe e consequentemente a sua possibilidade de constituir-se vanguarda ou parte decisória numa revolução proletária.

Feios, sujos e malvados é um filme clássico no sentido de instigar o pensamento do espectador na possibilidade da superação da pobreza, embora em nenhum momento ela seja na trama superada, pelo contrário, a pobreza é reproduzida como uma imitação tosca do sistema capitalista. Ao espectador com consciência política, ou noção de realidades próximas como as das favelas brasileiras, a obra apresenta tudo aquilo que uma comunidade não deve fazer se almeja escapar da sua condição absoluta de vulnerabilidade social.

Ao transpor Marx e o seus conceitos clássicos sobre a luta de classes e mesmo a sua pioneira definição sobre o lunpem, ao filme, temos a possibilidade de observar “in loco” estas ideias construídas em cima do enredo, o que transforma a obra num notável aprendizado.

 

 

Bibliografia:

 

MARX, Kark e Friedrich Engels, 1818-1883. O Manifesto comunista; Tradução Maria Lucia Camo. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998 – Coleção Leitura.

MARX, Kark e Friedrich Engels, 1818-1883. A Ideologia alemã; Tradução Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano. – São Paulo: Boitempo, 2007.

 

Bibliografia Internet:

Renegados pela sociedade em DVD Filme de Ettore Scola lançado em DVD retrata a vida de miseráveis na periferia de Roma em: http://www.pco.org.br/conoticias/cultura_2005/6fev_renegados.htm

Ettore Scola em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ettore_Scola

Ettore Scola em: http://museudocinema.blogspot.com/2007/03/ettore-scola.html

 

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