Por Uma Boa Razão

Origens

Acho que além da minha apresentação informal, deveria deixar um pouco da minha experiência pessoal e a minha história no mundo do modelismo, então pensei em escrever esse pequeno manifesto como uma forma das pessoas que não são próximas à Confraria conhecerem um pouco da minha história e como parei dentro do papelmodelismo.

Dizem que a minha família por parte de pai tem uma compulsão genética pelo colecionismo. Se pegar como exemplo o meu avô, um tio-avô e o meu pai, eles adoravam uma coleção, selos, discos de vinil, DVD’s e os mais antigos como o  eu avô e tio-avô, iam de tampas de garrafa, caixinhas de fósforo, canecas.

Ao que parece herdei deles essa aflição. Meu bom pai, foi quem me apresentou o modelismo. Como artista talentoso que era em vida, tinha gosto pelas miniaturas, principalmente de navios, adorava um trem elétrico em escala HO. Com ele na minha infância durante a segunda metade dos anos 70 e a primeira metade dos anos 80 desenvolvi o gosto pelo plastimodelismo.

Como muitos modelistas brasileiros, o meu primeiro contato com o plastimodelismo foi através da velha e saudosa Kikoler com a sua linha de kits Revell, esses modelos eram tão comuns que se achavam até em supermercados para comprar, poderia perder as contas de quantos modelos montei nesses primeiros tempos: Me-109, P-40, P-51, F4F, P-11, fora os maiores FW-200,  B-17, B-24, Lancaster, jatos como o F-111, F-16, F-14, F-102,  navios, alguns apenas montados sem pintura, outros eram pintados toscamente com tintas esmalte sintético Suvinil e Renner.

O Inicio do “Péricles Modelista”

Começei a melhorar um pouco o nível de montagem,na minha adolescência de 1985 em diante, porém ironicamente, os kits começaram a rarear no mercado nessa época com a falência da Kikoler, importação por conta da reserva de mercado imposta pelo governo ainda era quimérica, de forma que esse hobby adormeceu. Entre 1986 e 1990 fiz modelos com diversos materiais alternativos, notadamente a cartolina e o durepoxi.

Essa improvisação foi o que justamente me abriu o gosto, uma década mais tarde pela modificação de modelos de plástico, adicionando detalhes e mesmo pelo chamado scratchbuilding (construção de uma réplica do zero a partir de plantas).

Entre 1994 e 1997, a época em que eu era estudante de História, trabalhei na saudosa Eureka Plastimodelismo, que foi ao seu tempo junto com a Hobbycraft a maior loja de modelismo do sul do país, esse período foi o paraíso da importação de kits: Airfix, Revelll AG, Tamiya, Fujimi, Hasegawa, e outras tantas marcas apareceram no mercado com preços convidativos e acessíveis. Foi a época que o plastimodelismo teve o seu segundo “boom” de adeptos e lojas.

O primeiro kit Revell que montei na vida

O primeiro kit Revell que montei na vida

Foi um tempo muito divertido, em que fiz muitos amigos no meio (algumas dessas amizades frutificam até hoje) e fiz muito desafetos, a posição de lojista e modelista é muito incomoda e delicada, perdi alguns amigos por conta de encomendas que não chegaram, fofocas e etc.  A mistura entre profissionalismo e modelismo não dá certo muitas vezes, a arte de ganhar o pão e se divertir é muito tortuosa.

“Loucos Peres”

Nessa época por conta das facilidades de compra (imagina modelista comprar kits a preço de custo) cheguei a ter em casa perto de mil kits, para quem morava em um apartamento com mais cinco pessoas naquela época, era o cúmulo da demência, hoje digo: o hobby não pode dominar você – você domina o hobby, mas naquele tempo ele me dominou a ponto de perder namorada, amigos e de até vivenciar certas coisas que tem o momento certo para serem vividas,  por que preferia ficar  no eremitério da minha bancada lixando um bordo de fuga numa sexta-feira de noite do que cair numa balada.

Fachada da Eureka, hoje transformada numa recarga de cartucho, ainda pertence ao impagável Eurico...

Fachada da Eureka, hoje transformada numa recarga de cartucho, ainda pertence ao impagável Eurico...

Porém a vida às vezes é como uma maré e te chocalha possibilitando repensar coisas e atitudes. A Eureka fechou no final de 1997, falida por má administração, e a primeira desvalorização do real, eu consequentemente perdi o emprego, e nada  restou a não ser vender os mil kits para ficar com 200 deles.

Esta atitude, num primeiro momento dolorosa, foi o que efetivamente me acordou para o verdadeiro sentido do hobby. Essa “poupança” de estireno injetado, permitiu o pagamento da conclusão dos meus estudos, e o mais importante: me fez enxergar que o prazer é em montar, não apenas em ter o modelo prontinho na prateleira. Nesse “momentun” quebrei a idiossincracia dos modelistas no que refere-se a compulsão desesperada pelo “ter tudo” na sua coleção.  Isso teve um grande impacto na minha vida. Pois efetivamente o hobby começou a ter novamente o sentido real dele: diversão, prazer e relaxamento.

“Metamorfosis”

O meu ex-chefe o impagável Eurico tinha uma frase feita (das suas muitas) que considero uma das grandes verdades teológicas a respeito do modelismo, ele dizia: “QUE PELADO E HOBBY NÃO COMBINAM!!!!” essa máxima é uma semântica absoluta e correta.

Nos anos 2000, entrei no que os norte-americanos chamam de “insolvência pessoal”, vulga falência, perdi novamente o emprego, fiquei 4 anos fora do mercado de trabalho me sentindo um fudido literalmente. Senti na carne a semântica do Eurico, pois com filho pequeno para criar era quase um absurdo moral, comprar um vidro de tinta custando dez reais, ou um kit de um aviãozinho 1/72 custando cinquenta mangos.

Um dos meus últimos modelos da "era madura" do Plastimodelismo: Curtiss A-12, vacuforming da marca Rareplanes, com extenso scratch no interior.

Um dos meus últimos modelos da "era madura" do Plastimodelismo: Curtiss A-12, vacuforming da marca Rareplanes, com extenso scratch no interior.

Fora o problema econômico, me decepcionei profundamente a época com uma cambada de modelistas gaúchos, não cabe aqui relatar casos e pessoas, mas o fato é que descobri que a associação de modelistas em torno de objetivos comuns, se não existe amizade, é uma merda. É obvio que se encontra charlatães, paus no cú, desonestos, gente do mal em todos os meios, porém no modelismo aqui no sul é especial o número dessa gente do mal que brota do nada.

No Rio Grande do Sul, existem talvez os mais talentosos modelistas do Brasil, nosso clima semi-temperado propicia no inverno a reclusão (humm será esse argumento parece mais o do Sir Jaba), esquecam essa besteira, realmente tem gente muito talentosa aqui, porém o que o RS ganha de outros estados é em número de modelistas afetados, babacas e “wanna be”, a verdade é que me topei com tanto filha da puta, que acabei sofrendo um processo de “descurtição” do hobby.

O fato também de não poder usar um bom aerógrafo, pela pobreza de recursos foi um grande determinante para migrar de hobby. Mas que hobby????

Papelmodelismo ou Modelismo de Pobre ou ainda Papercraft??? Que porra é essa???

Foi em 2005 no verão, tinha uma USS Enterprise da AMT, daquelas grandes na escala 1/350 para montar, era um espólio da Eureka, estava meio cansado de montar aviões e os meus tanquinhos na 1/76 e 1/72, de modo que resolvi cair de boca no Sci-fi, um gênero de modelismo que sempre namorei mas nunca tinha me adentrado.

Buscando por fontes de referência no Google sobre a USS Enterprise dos filmes Star Trek 1,2,3 e 4 achei esse site: http://paperstarships.tengun.net/ com modelos gratuitos da franquia para montar. Foi o suficiente para fazer a casa do plastimodelismo cair na minha cachola, já que ela estava balançando de maneira perigosa por conta dos fatos já relatados.

De 2006 para cá o plastimodelismo foi ficando de lado. Por conta da influencia do amigo Marcus Borges, havia mudado para a escala 1/48, além do “incentivo”  (incentivo o caralho! Persuasão da grossa) do Marcus, achei que na escala 1/48 poderia dar rédea as minhas técnicas de customização e scratch, mas o preço altíssimo dos kits, aliado as minhas falidas condições financeiras da época me jogaram para o papel modelismo.

Comecei a longa tarefa de me desfazer dos kits 1/72 e 1/48 (que o amigo Guima tem vendido para mim até os dias de hoje com honestidade, competência e seriedade – sem puxada de saco de Paulo ;)) e me dedicar ao meu novo hobby.

O papelmodelismo, consiste basicamente da montagem de modelos 3D físicos a partir de dobraduras e laminações de folhas de papel, esse hobby que no Ocidente foi arcaico durante décadas, porém teve muito espaço na Europa Oriental e no extremo Oriente. A internet acabou nessa década o popularizando como uma alternativa barata, limpa, de grande portabilidade e acessibilidade. É enorme o número de entusiastas que disponibilizam modelos gratuitos, além de exisitir um gigantesco mercado editorial que vende modelos em revista ou através de downloads.

De Amador ao “Ordo Papelograficus”

Não preciso dizer que o meu primeiro modelo foi um desastre, tentei montar a USS Xerxes um destroyer da Federação da era TMP que baixei do Paperstarships, usei cartolina grossa para imprimi-lo, ainda não tinha idéia de como vincar, tentando dobrar tudo no dedão, ficou uma merda!!!  Posso dizer que os meus primeiros dez modelos ficaram uma bosta, porém aprendi bastante com eles, e posteriormente usei algumas técnicas do plasti para a montagem e melhoramentos.  Num par de anos já estava dominando a maioria dos processos avançados desse tipo de modelismo, além de fazer os meus próprios modelos conjugando o uso do Pepakura Designer (soft japa que desdobra modelos 3D transformando em kits de papel imprimíveis) com outros softwars de modificação e ripando meshes de jogos para transformar nos meus próprios modelos.

USS Xerxes o meu primeiro modelo, que acabou sendo destruido por um cruzador D 7 (a minha mão que o transformou numa bola de papel)

USS Xerxes o meu primeiro modelo, que acabou sendo destruido por um cruzador D 7 (a minha mão que o transformou numa bola de papel)

Um pouco antes do meu pai falecer, ele me ensinou o básico sobre como operar no Corel Draw e no Photoshop, esse presente do meu pai querido foi um grande estímulo a também trabalhar em repinturas de modelos de papel, notadamente de aviões da nossa querida FAB e outras forças armadas Brasileiras. Atualmente tenho repintado diversos modelos que inclusive estão a venda na loja virtual Ecardmodels, do incansável amigo Chris Gutzmer,  para quem quiser dar uma olhada (oia o merchandising projeto de cristão novo com cruza de graxain!!!!) o link é Ecardmodels .

Ficção, Aviação, Esoterices:  De Preferência tudo Pequeno!!!

Uma das coisas mais divertidas desse hobby além do seu baixo custo é o fato de poder usar a internet para conhecer e trocar modelos e informações com papel modelistas de todos o mundo. Fiz amizade com um polonês, que me ofereceu para testar a montagem de um modelo da bomba voadora V1 na escala 1/100. Gostei tanto da escala que defini ela como padrão para a minha coleção de aviões. O papel tem limitações,  enquanto mídia de reprodução, porém percebi que em escalas pequenas ele se transforma num ótimo meio para representar aviões. Até tentei fazer modelos em escalas maiores e tradicionais como 1/72 e 1/48, mas acabei não me adaptando. Então a velha escala arquitetônica 1/100 hoje ganhou o meu coração.

Claro que muitas técnicas tiveram que ser modificadas para representar alguns elementos, mas hoje me considero feliz em relação a isso tendo mais de 60 modelos de aviões de todas as épocas montados.

Finalmente Finalizando!!!!

Por aqui eu fico, dando fim a esse tortuoso texto estranho. Não pensem que essa é a apologia do papel modelismo, ou a choradeira do falido que não pode mais fazer plasti por que acabou o dinheiro dele, ou ainda do pobre modelistinha que se maguou com as bichas biscas modelistas do cenário local. Foi apenas uma tentativa de mostrar num curto texto a trajetória de mais de 20 anos de modelismo, com as suas indas e vindas.

Posso dizer que sou muito feliz com as minhas escolhas de hoje, me sinto realizado com o meu hobby, meus melhores amigos no modelismo são plastimodelistas, mas também tenho uma enorme quantidade de colegas pelo Brasil afora e no exterior papel modelistas, pessoas que ajudo e que me ajudam a despertar o verdadeiro sentido do hobby seja ele qual for: a diversão.

Por último um conselho amig@ leitor: Dou muita risada dessa gente esquisofrênica do modelismo que usa paquímetros e diz que aplicou um pré-shading aqui, um pós shading acolá e a pintura do modelo parece ter sido feita no final com uma trincha de pintor. Cada um com os seus dons, desde que se divirta com isso. Tenho certeza que se pegassem um F-5 da BACO e o pusesse numa máquina de redução e apresentar como modelo para a assistência  desse people ananá, eles  achariam defeito. Por isso digo, deixem as manias para os psiquiatras!

O importante é se divertir. O essencial é despertar o senso criativo que todos nós temos. Eu com um ex scrateiro digo que : vale muito mais um cockpit feito com plasticard e improvisações de material, do que um equivalente de resina da True Details repleto de photoecteds e outras punhetas! Para os amigos do plasti vos digo: não mutilem a sua criatividade por conta da preguiça e do ver pronto!!!!

O Peres pensando merda na bancada haaaan!

Agradecimentos especiais:

Meu adorado pai, esteja onde estiveres saudades eternas.

Minha namorada Laura, fâ número 1 do meu trabalho.

Canhoneiros! Amigos queridos nem sempre por perto mas sempre presentes.

Péricles   – Outubro de 2010

3 Responses to Por Uma Boa Razão

  1. Joca diz:

    Muito bom o bio-manifestográfico. Aliado ao conhecimento, tivestes a oportunidade de ficar pelo lado de dentro do balcão assistindo ao circo. Imagina ainda com os comentários bukowskinianos do Eurico, deve ter sido uma vida. Hoje tocando junto este barco, que por conta de outras “escolhas” estava parado, vamos aproveitar o que esta vida ainda nos tem a oferecer e não perder preciosos minutos com neuras de cor de interiores que depois ninguém consegue enxergar. É isso aí e vamos tocar este barco prá frente, que muita coisa boa ainda vem pela frente. Abração JOCA

  2. Asdrúbal diz:

    Pois é, nesse período que tu comentou tinha um cara mais ou menos da minha idade que atendia com bastante desinteresse na Eureka e entendia tanto dos padrões básicos de cores quanto eu na época de processamento digital de sinais. Bom, hoje eu entendo de processamento digital de sinais. E sou um modelista feliz, apesar do pouco tempo disponível e pilhas de caixas que só fazem aumentar.

    😀

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