Mikoyan Gurevitch MiG-15 “Fagot” – A primeira surpresa soviética da Guerra-Fria

Bem amigos vou apresentar a montagem de um papermodel de um clássico russo/soviético, o Mikoyan Gurevich MiG-15 “Fagot”, um dos mais famosos e proeminentes caças construído na União Soviética no após guerra.

O MiG-15 foi construido no final dos anos 40 calcado nas pesquisas alemãs sobre as asas enflechadas, há uma crença generalizada de que o seu design foi copiado a partir do Focke Wulf TA-183, isso é em fato verdade, embora os desenhistas da MiG usaram muito mais componentes comuns do caça bimotor a reação de primeira geração MiG-9 “Fargo” com soluções próprias. Pois embora tenham capturado os protótipos do Ta-183 e planos detalhados do mesmo, os engenheiros da Focke Wulf ficaram no ocidente após a II Guerra Mundial. Desde o final da década de 40 o escritório MiG vinha trabalhando em pesquisas aerodinâmicas próprias criando expertize a respeito de configurações alares avançadas, um exemplo é o avião de pesquisa com motor a pistão MiG-8 “Canard” Utka (pato) que tinha um leve enflechamento e canards. Assim os soviéticos aprenderam sobre asas enflechadas com um “empurrãozinho” das pesquisas alemãs.

No entanto no final da década de 40 a pesquisa soviética no campo dos motores estava atrás das nações ocidentais e isso atravancada o desenvolvimento do MiG-15, a maioria dos OKB na área da propulsão estavam tentando desenvolver um bom motor de fluxo axial. A URSS estava tentando por espionagem copiar o motor Rolls Royce Nene, uma excelente turbina de fluxo axial, muito superior as cópias dos motores centrífugos alemaes que os soviéticos estavam construíndo. Porém num golpe de sorte, por uma decisão estratégica equivocada, o governo trabalhista inglês da época, enviou por conta de um acordo comercial 27 peças desses motores, que imediatamente foram copiados por engenharia reversa pelo OKB Klimov que construiu a RD-45, um impulsor que em diferente versões equipou as famílias do MiG-15 e MiG-17. A Rolls Royce tomou um tufo de 207 milhões de libras na tentativa de cobrar os direitos de produção. E os russos puderam dar continuidade ao empreedimento do Fagot.

Inicialmente em 1948 a MiG fez voar dois protótipos com os sufixos do OKB como I-310, (o I de Iztrebitel – Interceptador) um tinha a cauda em T como o TA-183 e outro com os estabilizadores a meia cauda. Os protótipos tinham asas enflechadas a 35º e algumas características incomuns para melhorar o controle longitudinal como aletas nas asas que eram instaladas e reguladas em terra essas aletas eram chamadas de “nozhi” (em russo facas).

O MiG-15 entrou em serviço na URSS em 1949 logo revelou-se uma aeronave notável, com grande manobrabilidade e velocidade. O armamento composto de uma bateria de três canhões Nudelman Suranov N23 (2X) e N37 foi dimensionado com o objetivo inicial de abater o Boeing B-29 que na introdução em serviço do MiG-15 era o principal bombardeiro pesado norte-americano (muitos MiG de pré-produção foram testados em combates simulados e testes com munição viva, contra uma B-29 internada na URSS ainda na II Guerra Mundial e nas cópias soviéticas do mesmo (o Tupolev Tu 4). Um fato curioso é que esse armamento poderoso, dava algumas desvantagens contra inimigos menores e mais rápidos, pois a munição por ser de diferentes calibres desenvolvia velocidades diferentes além de provocar um tremendo “coice”. Era comun na Guerra da Coréia os americanos verem as traçadoras dos canhões de 23 mm chegarem antes da munição de 37 mm. Esse pesado armamento se revelou excelente contra viaturas blindadas leves e embarcações.

O “Fagot” ficou famoso na Guerra da Coréia (1950 – 1953) como a principal aeronave dos comunistas a entrar em combate contra as forças da Nações Unidas. E com tremendo êxito (não é bem como a historiografia americana afirma), já que abateram mais de 1000 diferentes aeronaves das Nações Unidas nos anos do conflito, pilotados por chineses e soviéticos (alguns destes últimos experientes pilotos que lutaram na II Guerra Mundial contra a Luftwaffe). Além do que o MiG-15 entrou diversas vezes em combate na década de 50 no Oriente Médio (Crise de Suez), contra incursores da OTAN da USAF e mesmo de outras nações como a Suécia que invadiram o território do Pacto de Varsóvia. A URSS também ajudou a China no inicio dos anos 50 a repelir incursões aéreas de Taiwan nas fases finais da guerra civil chinesa, sendo que em algumas ocasiões aviões dos nacionalistas foram derrubados. Ao contrário do que a historiografia ocidental afirmava até bem pouco tempo atrás, o MiG-15 teve muitas versões, é verdade que as duas principais eram a versão inicial ou A e a bis com motor VK-1, porém além da UTI de treinamento que foi utilizada por muitos países até bem pouco tempo atrás, os soviéticos desenvolveram várias versões de teste e protótipos demonstradores de tecnologia, essas que posteriormente foram incorporadas a outros aviões de fabricação MiG, como o MiG-17 e 19. A versão mais espantosa do MiG-15, é o míssel tático ASM KS-1 Raduga, literalmente um Mig 15 sem cockpit e trem de pouso com ogiva, obtido por conversão quando da obsolência do caça. Poloneses e Tchecos construiram o MiG-15 (Lim-1/2 e S-102/103) e os chineses construiram a versão UTI sob licença e sem licença estima-se que mais 15000 MiG-15 tenham sido construídos… O objetivo é uma linha de montagem de papermodels na escala 1/100 do MiG-15, esses modelos são do editor Marek Pacynski que repintei nas cores de diversos MiG utilizados principalmente por soviéticos durante o conflito Coreano. Esses modelos originalmente são na escala 1/50, eu que os reduzi para a minha escala padrão de reprodução, são precisos porém sem interior. Vamos as decorações:

MiG-15Bis #4115 – Regimento Desconhecido da Força Aérea da República Popular da China – Guerra da Coréia 1953.

MiG – 15 Bis da Força Aérea da Coréia do Norte (avião não pilotado por chineses ou soviéticos). Foi abatido pelo Capitão Manuel “Pete” Fernandez no início de 1953.

MiG-15 bis #758 pilotado pelo capitão P.S. Milaushkin do 176 IAP, 324 IAD, baseado em Autung (Coréia do Norte) em 1952.

MiG-15 Bis “Red Nose” “Blue 925′ Pilotado pelo Coronel E. G. Pepelyayev. Comandante do 196º IAP , 324º IAD , 64º IAK. Base aérea de Autung. Coréia do Norte, 1951.

MiG-15 bis “Red Nose” “Blue #686″ , pilotado pelo CO S. M. Kramarenko comandante do 2º Esquadrão Especial, Coréia do Norte 1951.

E aqui os modelos seguindo a ordem dos perfis, todos na escala 1/100, repintados no Corel Draw por mim. Esse modelo é da série antiga de Marek Pacinsky, bastante simples e sem interior, porém com um pouco de esforço ficam boas réplicas do pequeno Fagot. Procurei repintar aeronaves em acabamento de metal natural, pilotadas por soviéticos, ou então em outros esquemas de cores mais “exóticos” e incomuns da Guerra da Coréia.

O único cuidado necessário na montagem desses modelos foi com os formers, que precisaram ser cuidadosamente recortados e lixados, para encaixar os diferentes segmentos da fuselagem.

O conjunto de toda a minha coleção de MiG-15 na 1/100…

Notas de fórum:

Estou transcrevendo também um texto que fiz em uma das respostas em um fórum de modelismo que participo.

Existe uma crença generalizada que o MiG-15 foi inferior ao Sabre no conflito Coreano e que o “Fagot” é uma cópia de máquinas alemãs não construídas, que os soviéticos capturaram protótipos, técnicos e planos.

Vejam o que a minha pesquisa levantou:

Quanto a isso também acreditava nessa “versão”, porém isso é muito mais o senso comun dos norte-americanos durante a guerra-fria em inferiorizar o MiG-15 perante o F-86 do que propriamente fato.

No começo do tópico fiz um histórico resgatando a origem do MiG-15. E se compararmos com os projetos alemães mais próximos e concretos de serem construídos ao final da guerra que eram o Me P1101 e o FW TA-183, muito pouco tem de análogo em relação a esses. A única característica construtiva efetiva que o MiG herdou das pesquisas alemãs foi a asa a meia fuselagem. Os russos já vinham estudando asas enflechadas e canards após a guerra, o que a pesquisa alemã capturada fez, foi acelerar o desenvolvimento. A genialidade do projeto do MiG-15 deve-se  ao fato de ele usar o armamento, sistemas (na verdade o cockpit inteiro) do MiG-9. Essa célula básica com sistemas confiáveis e experimentados aliado às asas enflechadas é que foi a grande sacada pois abarcava tecnologia aerodinâmica avançada com a que já existia nos aviões a pistão da II Guerra Mundial. O único ponto fundamental de plágio e que resolveu o problema dos russos, foi a cópia descarada  da turbina R&R Nene, apesar de os propulsores alemães serem de concepção mais avançada ainda não tinham desenvolvido uma segunda câmara de combustão, não tendo a potencia necessária. O VK-1 cópia do Nene, apesar de ser um turbjato centrífugo era altamente desenvolvido e potente, potencia que numa célula leve e simples permitia o MiG ser mais rápido e fazer curvas mais fechadas que o F-86 e o Hunter. Os ingleses até hoje se arrependem dessa cagada de ter dado acesso aos russos a essa tecnologia…
 O enflechamento das asas do MiG-15 era em 35º enquanto do TA-183 era em 45º a do P1101 eu não lembro. Os alemães não previram a falta de controle longitudinal, se voce voar em qualquer simulador esses Luft 46 verás que eles tem problemas de controle lateral e como o MiG-15 entram em parafuso muito fácil o Ta-183 entraria em parafuso em mergulhos rasos só para dar um exemplo. O diferencial no caso do MiG-15 é que ele entra em parafuso acima de Mach 0,92 em mergulhos agudos, e essa melhora de desempenho ocorre por causa de uma invenção genuinamente russa: as Nozhy (facas), aqueles direcionadores de fluxo nas asa que eram ajustadas de maneira manual em terra.
O unico projeto alemão relativamente parecido com o MiG-15 é o segundo desenvolvimento do TA-183 chamado Projëckt 2 que previa o uso de uma cauda com estabilizadores servo-comandados na metade da deriva… Dele deriva o famoso Pulqui II argentino, que fez seus vôos com um turbojato de fluxo axial, e ainda assim um dos motivos técnicos pelos quais os hermanos abandonaram o Pulqui eram certas características vamos por assim dizer maliciosas de comportamento em vôo. Nota: O Pulqui II é um descendente direto do TA-183, e foi projetado pelo próprio Kurt Tank…

Por fim não resisti a essa comparação…

E impressionante a diferença de tamanho entre o Convair F-102 Delta Dagger e o MiG-15. O mais interessante, é que o F-102 foi desenvolvido também em cima de pesquisas alemãs da II Guerra e foi gestado na mesma época do MiG-15, obviamente o F-102 foi desenhado para um propósito especializado, como interceptador de ponto e controlado por um controle de terra altamente sofisticado para a época. O interessante  é que a matriz tecnológica de ambos é semelhante, guardada as devidas proporções.

 

2 Responses to Mikoyan Gurevitch MiG-15 “Fagot” – A primeira surpresa soviética da Guerra-Fria

  1. Tião Ferreira diz:

    Belo artigo, man! Depois eu te mostro o avião alemão que creio também ter servido de base para os estudos soviéticos.

  2. mozair de freitas diz:

    os migs pra mim são os aviões mais lindos q foram fabricados, principalmente o mig 15

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>