Hashima a Ilha Fantasma…

Esses dias, eu estava vendo aquela série “O Mundo sem Ninguém” do History Channel, e eles deram como exemplo no episódio,  do que poderia acontecer com as estruturas de concreto se degradando com o passar dos anos, sem ninguém para dar manutenção.

No programa eles citaram como exemplo a cidade-ilha de Hashima, confesso que fiquei impressionado, e fui atrás de mais informações.

Hashima hoje em dia, é a mais tétrica cidade fantasma do Mundo (talvez só perca para as cidades abandonadas na Ucrânia por conta dos acidente nuclear de Chernobyl de 1986), tem o barato de ser uma ilha, e foi durante algum tempo o lugar com maior densidade populacional do planeta (recorde ainda não batido). Então por que a ilha não está mais habitada???

Tudo começou no final do século XIX, quando o Japão começou a sua vertiginosa industrialização, Hashima era uma rocha na frente do porto de Nagazaki, rica em carvão, que praticamente aflorava da superfície da pequena pedra de menos 1 km de comprimento no meio do mar.

A ilha pertencia a uma familia feudal japonesa, os Fukahori, que na era Meijii explorava de maneira primitiva o carvão mineral, abrindo pequenos fossos e buracos. Na metade do século XIX, com a abertura do Japão para o ocidente, e ao mesmo tempo o aparecimento de barcos com caldeiras a vapor, fez com que o porto de Nagazaki ganhasse muita importância e consequentemente houve a necessidade de aumentar produção de carvão para abastecer esses barcos, notadamente ingleses e americanos que usavam esse porto como ponto de parada para chegar a China.

Assim o clan Nabeshina que controlava a maior parte da região de Nagazaki, pediu para um inglês, Thomas Glover, para modernizar e incrementar a produção da ilha. Glover trouxe equipamentos modernos e engenheiros ingleses, que perfuraram um fosso na ilha de 47 metros de profundidade em 1869,  nascia a história da ilha Hashima.

Três anos depois, a ilha foi comprada dos senhores feudais pelo gigantesco conglomerado da Mistubishi, que começou a explorar sistematicamente o carvão de alta qualidade que existia nas minas.  Com o início do expansionismo japonês, através das vitorias na guerra Sino- Japonesa de 1894 e na guerra Russo-Japonesa de 1905,  a empresa incremento a produção, por conta da crescente demanda,  afundando enormes pillbox de concreto para criar um porto artificial.

Durante a 1ª Guerra Mundial, começaram a serem construidos dentro desses pillbox, edificios de concreto (os mais altos construídos até então) para acomodar os trabalhadores da mina, isso marca o início da construção de um dos mais pirados complexos arquitetônicos do mundo contempôraneo, esses edifícios com uma média de dez andares, não tinham elevadores, apenas escadas, passarelas e túneis por baixo do leito do mar que os conectavam, além de toda a parte da maquinaria pesada de extração, trituração e despacho do carvão.

Outra característica notável, é o fato de que praticamente todo o solo natural da ilha foi coberto pelo concreto, sobrando apenas um poucos paredões, até a década de 60 (quando houve uma campanha para os funcionários e famílias plantarem em cima dos edifícios) não havia nenhuma planta na ilha,  seja natural ou transplantada pelo homem.

No periodo que compreende as duas guerras mundiais, Hashima foi apelidada de Gunkanjima (Ilha Navio de Guerra, ou Battleship Island), por que a sua silueta com a construção dos edificios mais as pillbox de concreto davam a aparencia de um navio de guerra.

As condições de trabalho naqueles tempos eram severas, sendo que os apartamentos (os  primeiros edificios para esse fim como concebemos hoje, construídos na história) eram na verdade depósitos de mão de obra humana, as condições eram degradantes, insalúbres e perigosas.

De 1935 a 1945, muitos trabalhadores Coreanos e Chineses foram forçados a trabalhar nas minas, estima-se que mais de 500 dessas pessoas tenham morrido na ilha, por trabalhos forçados, o que dá um aspecto ainda mais sinistro ao lugar.

Essa época marca a expansão da ilha com a construção de mais e mais blocos de apartamentos, para acomodar mais trabalhadores e prisioneiros de guera, dado que a demanda Japonesa por carvão no tempo de guerra era imensa.

Com o fim da II guerra, em Hashima, marca-se a sua era de ouro. O Japão é forçado a se ocidentalizar, nesse período que vai até a decada de 50, marca uma nova era na Ilha. A Mistubishi, cria uma série de benfeitorias para os mineiros e suas famílias, (que agora são trabalhadores assalariados) constroem-se escola, hospital, delegacia de policia, cinema, fliperama, piscina, ginásios de esportes, os apartamentos contam com cozinhas coletivas e banheiros públicos, além de lojas e restaurantes nos andares térreos dos edifícios. De 1950 a 1960, constroem-se tubulações de agua no leito do mar para abastecer a ilha, mas de resto, Hashima dependia de tudo para sobreviver: comida, roupas e outros produtos que vinham de navio do Japão.

Em 1959, a ilha chegou a incrível marca de  5.259 habitantes, a maior densidade populacional já vista no Mundo, mais ou menos 835 pessoas por hectare, para se ter uma idéia o recorde de densidade demográfica hoje  no japão é de Warabe, um bairro de Tóquio que consta com míseros 141 habitantes por hectare.

Entre os anos 50 e 60 Hashima foi um exemplo da fusão entre as lições do ocidente no que refere-se a trabalho, do ponto de vista da capitalista, e a sociedade tradicional japonesa, funcionando como um micro-cosmo da sociedade japonesa contemporanea.

A Compania Mistubishi era a grande “mãe” da comunidade, pois fornecia luz, agua, dinheiro, segurança, bem feitoriais. Nos anos 60 o advento da TV e da sociedade de superconsumo no Japão, também atingiu Hashima, dos velhos prédios erguiam-se florestas de antenas de TV.   Tinha uma discoteca, os últimos filmes da época, os apartamentos contavam com refrigeradores. Porém tudo isso acabou derrepente.

Como outras cidades mineiras Hashima, também sofreu o destino da mudança da política nacional do seu país no que refere-se a mudança da Matriz Energética. O Japão lentamente mudou a sua matriz do carvão para o petróleo entre a década de 50 e 60,  para a Mistubishi, explorar carvão e manter aquela enorme estrutura deixou de ser um negócio lucrativo.

Assim em 1974,  foi desativada a mina e a isso se seguiu um enorme e rápido exôdo, tão rápido que alguns apartamentos ficaram como estavam, com móveis, roupas, utensílios de cozinha, equipamentos pesados, hospitalares, tudo foi deixado na ilha, a Mistubishi apenas tirou equipamentos caros e sofisticados demais para serem estragados pelo mar.

A ilha virou um museu lúgrube e macabro dos anos 70 ao céu aberto, as visitas a Hashima foram proíbidas por mais de 30 anos,  desde então as estruturas vem se degradando a força dos ventos e do sal marinho, é notável a destruição e corrosão, principalmente da madeira , da qual eram feitas as sacadas e janelas dos apartamentos, entre os prédios o entulho é gigantesco. O lugar hoje serveria para filmar uma continuação do Resident Evil, e nos serve como um alerta em dois aspectos: o desequilibrio ambiental pode sim, dada a escasses de recursos naturais, criar comunidades como a de Hashima, e se a nossa civilização chegar os fim, eis um belo exemplo do que pode acontecer com as estruturas de concreto dos prédios das nossas cidades.

As fotos falam por si só…


4 Responses to Hashima a Ilha Fantasma…

  1. Petuco diz:

    Muito legal a matéria Péricles, sugiro ao pessoal procurar no Google imagens da ilha, é realmente assutador.

  2. Joca diz:

    O programa do History é muito legal. Quanto a ilha, realmente é impressionante, tanto pela arquitetura ali desenvolvida, como o conceito de ocupação do espaço, algo complicado para nós, que além de esbanjar tudo, não temos noção do quanto vale cada metro quadrado nesse mundo. Outro choque cultural entre nossos mundos, é a visão que o oriental tem da vida e a sua capacidade de adaptar-se a condições para nós impossíveis, um exemplo que no ocidente não vingou foram os hotéis cápsula, onde em um espaço mínimo o ocupante tem todo tipo de conforto necessário. Uma analogia, com este “conjunto fantasma” podemos ver nos nossos campos nos cupinzeiros, onde geralmente, após a morte da rainha os cupins entram em colapso e desaparecem, ficando uma estrutura que o tempo irá dar conta pela falta de manutenção.

    • Peres diz:

      É bem isso tio Joca, a analogia com o cupinzeiro é perfeita, Hashima foi a recordista em densidade populacional, foi uma das primeiras minas embaixo do oçeano e ainda teve os primeiros prédios de concreto pré moldado do mundo (feitos em 1916). Mas não precisamos ir no japão para ver um “efeito Hashima” no que refere-se a abandono por conta da mudança da matriz energética. Basta ir a Arroio dos Ratos e visitar o Museu do Carvão, as estruturas lá também foram abandonadas a própria sorte com o fim da Mineração.

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